A independência e o protagonismo por meio do esporte

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“O esporte me deu independência e liberdade”.

Assim Leandro Souza de Oliveira, mais conhecido como Oliver Beat, define a sensação de ter conquistado o protagonismo de sua vida com o incentivo do esporte. Com apenas quatro anos de idade, o jovem que tem artrogripose congênita múltipla, uma limitação congênita dos movimentos das articulações e do desenvolvimento de músculos, já havia passado por 24 cirurgias. Mas isso nunca foi uma barreira.

Hoje, aos 25 anos, Oliver faz parte da seleção capixaba de natação na classe S1, além de se aventurar em esportes radicais como saltar de paraquedas e atravessar uma lagoa nadando em meio às piranhas:

“Minha deficiência nunca me parou porque desde criança nunca me vi diferente. Graças a Deus venho de uma família que, além de ter me dado uma educação muito boa, nunca me fez sentir que eu era diferente dos meus irmãos. Entendia que tinha uma deficiência, mas nunca ninguém me disse que eu não conseguiria, me falavam: ‘Tenta, se você conseguir, muito bem. Se não, serve como aprendizado’. Além do esporte me fazer sentir forte, me faz querer sempre superar, pois ele ensina a se desafiar”.

O amor pelo esporte surgiu ainda quando criança. Quando tinha sete anos, em um passeio com seus irmãos, viu um grupo de skatistas em uma praça e pediu para dar uma volta.

“As pessoas riram do meu pedido e perguntaram como eu conseguiria. Saí da cadeira, rolei até o skate e comecei meio que surfar, meio remando. A partir daquele momento me descobri em cada esporte. O meu primeiro foi o skate e eu achei incrível ver as pessoas caindo, levantando e sorrindo. Eu queria sentir aquilo ali. Estava numa cadeira de rodas e queria conhecer tudo o que tinha direito, e eu ia, com muita vontade.”

Mas a relação com a água foi mais forte. O atleta conta que outro momento marcante em sua infância foi quando esteve em um sítio de uma amiga de sua mãe e entrou na cachoeira:

“Lembro do meu pai me colocando na água. Na mesma hora eu senti uma emoção muito forte, uma química, fiquei apaixonado. Sabia, dentro de mim, que eu queria ser atleta. O esporte me ensinou a ter uma autoestima melhor. Me sentia livre, sentia meu coração bater, as pessoas paravam de me olhar com aquele estereótipo de cadeirante e coitadinho e passavam a me olhar como uma pessoa que está vivendo”.


“Autoconhecimento, saber perder, ganhar, respeitar o próximo e ter independência”

Na vida da nadadora paralímpica e dançarina Camille Rodrigues (classe S9) também não é diferente. O esporte é mais uma vez o coadjuvante em uma história marcada por percalços e muitas conquistas. Por conta de uma má formação congênita, Camille teve a perna amputada ainda criança

“Aos três anos tive que viver com essa perna bem menor, e isso gerou algumas atrofias, de coluna, bacia… Foi aí que entrou o esporte na minha vida. A natação veio como uma indicação médica e ali começou a nascer tudo. O autoconhecimento, saber perder, ganhar, respeitar o próximo e ter independência.”

Camille começou sua carreira de atleta aos 15 anos e atualmente compete pelo Clube de Regatas Vasco da Gama. Aos 29 anos, ela tem no currículo oito medalhas em Jogos Parapan-Americanos, além de ser detentora de vários recordes nacionais em sua classe. Camille destaca o quanto o esporte foi essencial em sua trajetória:

“Ajudou muito na minha autonomia, independência, responsabilidade e me fez protagonista da minha vida. Foi pelo esporte que saí de casa, que aprendi a ganhar, a perder, a respeitar, e saber que aquilo só dependia de mim. O esporte me ajudou em todas as fases, em todos os quesitos da minha vida.”

Mesmo com as inúmeras vitórias e medalhas, para Camille, graças a sua base familiar, a maior conquista pessoal foi a independência: “Para uma pessoa com deficiência, que nasceu no interior, me tornar independente foi a minha maior conquista pessoal. Apesar dos bens materiais, como casa e carro, acho que a minha maior conquista pessoal foi conseguir ser uma mulher independente.”

Suas realizações não foram apenas dentro das piscinas. Por meio das redes sociais, a atleta compartilhou com o público uma outra paixão e talento: a dança! A fama na web rendeu convites. Esteve no clipe de grandes artistas como Lucas Lucco, Parangolé, entre outros, dançou com Anitta no palco do Prêmio Multishow, e em 2018 participou da abertura do “Fantástico”, em comemoração dos 45 anos do programa da TV Globo: “Foi uma grande representatividade que eu levei. Os PCDs estão ali no horário nobre e isso me dá um orgulho muito grande”.

E seus planos e sonhos não param por aí. Camille conta que no futuro pretende se dedicar à nutrição:

“Ainda sou atleta, a natação ainda tem uns 80% da minha vida, mas estou em transição de carreira para nutricionista”.

Conheça um pouco mais da Camille Rodrigues em seu Instagram.

Humor para falar de inclusão

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O sorriso no rosto do mesa-tenista Guilherme Costa, 29 anos, ao conquistar a medalha de bronze nos Jogos Paralímpicos Rio 2016, por equipes (classe 1-2), é transmitido diariamente nas redes sociais. O atleta de Brasília faz parte dos influenciadores digitais que escolheram o caminho do humor para espalhar a inclusão.

O dom da comunicação sempre esteve presente na vida de Guilherme, mas após ser atropelado aos 14 anos e ter ficado tetraplégico, ele diz ter “se tornado um comunicador”. O jovem fez questão de mostrar que seu prazer pela vida seguia ainda mais forte. Atualmente, além do canal “Vai Curupira“, no Youtube, tem quase 50 mil seguidores no Instagram.

“Me tornei naturalmente um comunicador pós-acidente, já que dentro do universo da lesão medular sou conhecido e tenho voz. Minha presença nas redes sociais começou lá no Orkut, em 2006, quando criaram uma comunidade para passar os boletins do hospital após o meu acidente. Depois veio o Facebook, e atualmente utilizo bastante Instagram, Youtube e Tiktok”.

Guilherme acredita que criar conteúdos divertidos aproxima as pessoas:

“A minha maneira de humor e de brincar quebra um pouco o distanciamento da pessoa com deficiência. É normal que me olhem e falem: ‘Olha, queria saber o que aconteceu contigo’. E fiquem preocupados em falar comigo.”

“Quando eu chego com humor e já explico, quebro isso. A vida é muito curta para ficarmos ‘cheio de dedos’ uns com os outros. O humor é uma porta de entrada para falar de inclusão de forma leve e quebrando qualquer barreira.”

O mesa-tenista acredita ainda que o humor também pode ser uma oportunidade de educar com leveza:

“O humor é extremamente necessário. A gente vê tanta coisa cabulosa por aí. Valorizamos situações negativas. Por isso faço tanta questão de só mostrar coisas bacanas nas minhas redes. Humor é uma grande porta de entrada para a informação e educação. Meu público me escuta por meio das postagens.”

Roberto Alcalde, adepto do humor para se comunicar nas redes sociais

Destaque da natação paralímpica no Brasil, Roberto Alcalde Rodriguez – campeão mundial nos 100m peito SB6 em 2013, e ouro nos Jogos Parapan-Americanos de Lima 2019 na mesma prova – também é adepto do humor para se comunicar nas redes sociais.

Com diversas postagens divertidas, o esportista mostra sua rotina de treinos e fala de sua trajetória. Aos 29 anos, Roberto, que nasceu em Bagé, Rio Grande do Sul, vive atualmente em São Paulo.

“Quando me tornei atleta profissional resolvi criar um perfil no Instagram e Facebook para compartilhar um pouco dos meus resultados e, quem sabe, ajudar a conseguir patrocínios”, explica Roberto, que ressalta:“A visibilidade das redes sociais ajuda de várias formas e a aproximação com os fãs é a melhor parte, principalmente para quebrar barreiras que algumas pessoas possuem sobre o atleta paralímpico”.

Roberto tinha medo de colocar humor nas redes e parecer ‘menos sério’ e com isso perder oportunidades de patrocínio no esporte. O atleta, que participou dos Jogos Rio 2016 e Tóquio 2020, percebeu que o caminho poderia ser mais leve quando recebeu mensagens positivas após publicar algumas brincadeiras nos stories.

“Entendi que poderia influenciar as pessoas positivamente apenas fazendo o que eu gosto. Passei a valorizar que minha presença nas redes já valia a pena se eu melhorasse o dia de alguém. Utilizando o humor tenho muito mais retornos e isso me motiva ainda mais”

Para Roberto, que nasceu com mielomeningocele, uma má-formação congênita da coluna vertebral, a melhor forma de falar de inclusão é utilizando o humor:

“O humor baixa a guarda das pessoas e com isso elas aprendem e entendem que a nossa vida não é uma tragédia, muito pelo contrário. Penso que o humor é a forma mais eficiente de conscientizar as pessoas sobre algum assunto. Temos que tirar a pessoa da defensiva e abrir a cabeça dela para aprender”.