Dia Internacional do Braille reforça importância do sistema no acesso pleno à escrita

Uma mulher sentada à mesa lendo com as mãos um caderno em braille.

Ela está em um ambiente interno, com expressão concentrada, olhando para baixo. O cabelo está preso para trás e ela usa uma blusa sem mangas, de gola alta, em tom rosado. No pulso direito há um relógio e uma pulseira.

Sobre a mesa de madeira há um caderno grande de espiral aberto, com páginas brancas cheias de pontinhos em relevo (braille). As duas mãos estão apoiadas na página, com os dedos percorrendo as linhas.

Ao fundo, à esquerda, aparece um sofá azul com almofadas coloridas; atrás dele, uma janela com grades e uma fileira de fotos pequenas penduradas. No centro há uma porta de madeira; à direita, uma parede clara e parte de um corredor/entrada.
Judoca Wiliany Nascimento lê livro impresso no Sistema Braille | Foto: Arquivo Pessoal

Celebrado em 4 de janeiro, o Dia Internacional do Braille chama atenção para um sistema de leitura e escrita que, quase dois séculos após sua criação, segue central para o acesso à informação, à educação e à cidadania de pessoas com deficiência visual. Desenvolvido no século XIX por Louis Braille, que era cego, o método se baseia na combinação de seis pontos em relevo que permitem a representação de letras, números, sinais de pontuação e símbolos diversos.

Mais do que um recurso técnico, o Braille é a única forma de escrita que possibilita o contato direto da pessoa que não enxerga com o texto. Para a educadora Patrícia Braille, mestra em Educação Científica, Inclusão e Diversidade, esse é o principal diferencial do sistema: o contato com a escrita sem a intermediação de terceiros.

Embora reconheça a importância de outras formas de acesso à leitura, como livros falados e recursos tecnológicos, Patrícia ressalta que apenas o Braille possibilita uma experiência de leitura totalmente autônoma. “Esse contato direto e íntimo, quando uma pessoa se encontra com o livro sem mais ninguém interferindo, só o Braille é capaz de oferecer a quem não enxerga.”
Na avaliação da especialista, essa autonomia tem impacto direto na formação crítica, especialmente durante a infância. “Acredito que essa singularidade do Braille deva ser mais valorizada, sobretudo na infância, quando estamos todos buscando compreender o mundo, construir sentidos básicos.” Para ela, embora a leitura mediada por voz seja um recurso relevante, pode induzir significados até mesmo na entonação do que é pronunciado.
Patrícia também chama atenção para a ideia recorrente de que o Braille estaria ultrapassado diante da disseminação das tecnologias assistivas. “Embora analógico, o Sistema Braille também é uma tecnologia assistiva, criada por uma pessoa cega, que vem se mostrando eficiente e insubstituível em sua proposta: permitir que pessoas cegas escrevam e leiam sem interferência de mais ninguém.”
Em sua pesquisa de mestrado, a educadora defende uma “convergência de recursos acessíveis”. “Nada impede que livros falados, e-books, a navegação na internet etc, sejam associados ao braille. O mais importante é ofertar todas as formas de acesso a todas as pessoas e deixar que elas escolham aquilo que realmente atende à sua necessidade particular.”
Patrícia relata que ainda escuta que o Braille seria uma escrita segregadora ou um “produto para cegos”. Ela discorda. “Uma análise mais cuidadosa e séria sobre o cenário do livro e da leitura no contexto da acessibilidade nos leva a entender que o que segrega de verdade é a negligência do mercado editorial com a necessidade real das pessoas cegas. A não-produção de livros em Braille, essa sim, separa a sociedade em dois grupos: de um lado os que podem e do outro os que não podem ler, simplesmente porque não têm acesso ao livro. O Braille é simples, fácil, funcional e insubstituível em sua proposta.”
A experiência prática do uso do Braille aparece no relato de Wiliany Vitória Costa do Nascimento, 17, atleta de judô da Escola Paralímpica de Esportes do Comitê Paralímpico Brasileiro. Wili teve contato com o sistema ainda na infância, quando tinha 3 anos, a partir de uma atividade lúdica que simulava as células Braille.
“Ainda que hoje a tecnologia nos auxilie e esteja evoluindo cada vez mais, o Braille ainda é essencial em situações cotidianas como a leitura e compreensão de mapas, placas de sinalização, rótulos de produtos e objetos, eletrodomésticos como por exemplo micro-ondas, caixas de remédio, entre outras situações em que a tecnologia pode se mostrar com pouca eficácia, enquanto a leitura ainda consegue ser mais precisa.”
Como atleta paralímpica, Wili teve uma experiência com Braille e vestimenta que gostaria que fosse replicada por outras marcas. “Os uniformes que recebemos do Comitê Paralímpico Brasileiro têm Braille nas etiquetas informando as cores, em siglas. Isso nos dá uma autonomia muito grande, não só para nós do meio esportivo, mas para nós pessoas cegas em geral.”
Para Wili, o contato direto com a escrita proporcionado pelo Braille também influencia a forma como as pessoas se comunicam. “Fica evidente se compararmos a qualidade de desenvolvimento de ideias, ortografia e oralidade de alguém que tem contato direto com a escrita e de outra pessoa que está acostumada com os meios tecnológicos, tão influenciados por siglas e abreviações.” Sua fala reforça o papel do Braille não apenas como recurso de acesso, mas como base para o desenvolvimento pleno da escrita.

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