Patrícia Moraes
14 de Novembro de 2025

Por trás de cada peça movimentada, carta virada ou dado lançado, há algo maior acontecendo: conexões humanas. Essa é a essência do Tabuleiro Acessível, projeto criado pelo psicólogo Rafael Pisani, em Belo Horizonte (MG), para transformar os jogos de tabuleiro em ferramentas de inclusão.
A ideia nasceu em 2017, quando Pisani conciliava o fim da faculdade de Psicologia com o início da formação em Libras (Língua Brasileira de Sinais). Na época, ele já participava de oficinas de jogos modernos — versões mais estratégicas e cooperativas que os tradicionais Banco Imobiliário ou War — e se fez uma pergunta simples, mas transformadora: “Por que só eu posso jogar? Todos podem.”
A resposta virou um movimento. Em parceria com amigos e intérpretes de Libras, Pisani começou a promover oficinas em museus, escolas e eventos culturais. O que era um protótipo virou referência nacional em acessibilidade lúdica, levando jogos a pessoas surdas, cegas, neurodivergentes e famílias inteiras.
“Nosso foco é criar espaços em que todos se sintam bem-vindos. Às vezes, não é o jogo que muda, é a forma de jogar”, diz Pisani.
Jogos que se adaptam às pessoas, e não o contrário
O Tabuleiro Acessível não fabrica jogos, mas adapta a experiência: há mesas com intérpretes de Libras integrados à partida, fichas em Braille, dados sonoros, ajustes de regras e mediações que garantem equidade, não igualdade. “Cada pessoa tem seu ritmo e sua forma de participar. O importante é que a experiência seja compartilhada”, explica o psicólogo.
Durante uma oficina, por exemplo, uma menina autista de seis anos que nunca havia conseguido se envolver em jogos ficou fascinada por um desafio de formar palavras. “Ela não seguiu todas as regras, mas brincou, criou, se divertiu. Isso é acessibilidade: oferecer caminhos diferentes para chegar à mesma alegria”, relembra Rafael.
Desde 2019, o projeto é coordenado também pelo designer Gabriel Dias, parceiro de Pisani, e hoje reúne uma equipe diversa, formada por pessoas autistas, com TDAH e deficiência visual. O grupo atua de forma voluntária e já levou oficinas a dezenas de cidades, escolas e eventos — incluindo o Diversão Offline (DOF), maior encontro de jogos de tabuleiro da América Latina, onde o Tabuleiro Acessível foi responsável por tornar o evento acessível a surdos.
Sete anos depois do primeiro tabuleiro adaptado, o projeto segue crescendo. Agora, Rafael e sua equipe trabalham para transformar o Tabuleiro Acessível em um negócio social, capaz de levar oficinas a escolas públicas e produzir o primeiro jogo brasileiro desenvolvido desde a origem com acessibilidade plena em Libras.
“A gente sempre foi movido por voluntariado, mas quer ir além. Nosso sonho é que pessoas com deficiência também criem jogos, que existam designers surdos, cegos, autistas. Queremos que a acessibilidade faça parte da indústria, e não de uma exceção”, diz Pisani.
Em suas oficinas, não há vencedores ou perdedores. Há risadas, convivência e um aprendizado silencioso sobre a importância de jogar junto. “Quando uma pessoa surda, cega ou neurodivergente se senta à mesa e sente que pode jogar — que aquele espaço também é dela —, o jogo muda. E o mundo muda junto”, resume o criador do projeto.
O brincar como saúde e inclusão
A psiquiatra infantil Rosa Magaly Morais, diretora acadêmica da Comportalmente e voluntária do Programa de Transtorno do Espectro Autista (PROTEA) do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, explica que o brincar é uma linguagem universal e essencial para o desenvolvimento cerebral, emocional e social.
“Brincar é experimentação. É onde a criança expressa o que sente e aprende a resolver problemas, planejar, se frustrar e tentar de novo. Isso vale para todas, com ou sem deficiência”, diz a médica.
Segundo ela, crianças que brincam mais têm maior competência social e menos risco de desenvolver transtornos mentais. Já a exclusão e a falta de representatividade são fatores de risco.
“Representatividade é saúde mental. Quando uma criança se vê num brinquedo ou jogo, ela se sente parte. Quando não se vê, cresce com a sensação de que não pertence. Isso vale para uma boneca cadeirante, um tabuleiro em Braille ou um jogo com tradução em Libras”, completa.
Para Rosa, brinquedos acessíveis não são filantropia, mas neurociência aplicada. “Eles reduzem o estigma, ampliam a empatia e constroem uma sociedade menos violenta e mais acolhedora. Acessibilidade é prevenção e também tratamento em saúde mental”, afirma.
Outras opções para o brincar inclusivo
O movimento pela inclusão no brincar vai além dos tabuleiros. No Brasil, instituições e empresas têm apostado em produtos adaptados para diferentes tipos de deficiência. Confira algumas opções:
Dominó tátil da Laramara – produzido pela instituição de reabilitação para pessoas com deficiência visual, o jogo traz marcações em alto-relevo nas peças.
Xadrez e dama tátil adaptados – tabuleiros com texturas e pinos que facilitam o tato, desenvolvidos por lojas especializadas em produtos acessíveis.
Jogos da memória, sudoku e baralho em Braille – versões com números e símbolos em relevo, estimulando coordenação e cognição.
Barbie Figurinista Inclusiva (Mattel) – bonecas cadeirantes, cegas e com síndrome de Down, que ajudam crianças a reconhecer a diversidade como natural e positiva.
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