Thaysa Cintra
27 de Janeiro de 2022
“O esporte me deu independência e liberdade”.
Assim Leandro Souza de Oliveira, mais conhecido como Oliver Beat, define a sensação de ter conquistado o protagonismo de sua vida com o incentivo do esporte. Com apenas quatro anos de idade, o jovem que tem artrogripose congênita múltipla, uma limitação congênita dos movimentos das articulações e do desenvolvimento de músculos, já havia passado por 24 cirurgias. Mas isso nunca foi uma barreira.
Hoje, aos 25 anos, Oliver faz parte da seleção capixaba de natação na classe S1, além de se aventurar em esportes radicais como saltar de paraquedas e atravessar uma lagoa nadando em meio às piranhas:
“Minha deficiência nunca me parou porque desde criança nunca me vi diferente. Graças a Deus venho de uma família que, além de ter me dado uma educação muito boa, nunca me fez sentir que eu era diferente dos meus irmãos. Entendia que tinha uma deficiência, mas nunca ninguém me disse que eu não conseguiria, me falavam: ‘Tenta, se você conseguir, muito bem. Se não, serve como aprendizado’. Além do esporte me fazer sentir forte, me faz querer sempre superar, pois ele ensina a se desafiar”.
O amor pelo esporte surgiu ainda quando criança. Quando tinha sete anos, em um passeio com seus irmãos, viu um grupo de skatistas em uma praça e pediu para dar uma volta.
“As pessoas riram do meu pedido e perguntaram como eu conseguiria. Saí da cadeira, rolei até o skate e comecei meio que surfar, meio remando. A partir daquele momento me descobri em cada esporte. O meu primeiro foi o skate e eu achei incrível ver as pessoas caindo, levantando e sorrindo. Eu queria sentir aquilo ali. Estava numa cadeira de rodas e queria conhecer tudo o que tinha direito, e eu ia, com muita vontade.”
Mas a relação com a água foi mais forte. O atleta conta que outro momento marcante em sua infância foi quando esteve em um sítio de uma amiga de sua mãe e entrou na cachoeira:
“Lembro do meu pai me colocando na água. Na mesma hora eu senti uma emoção muito forte, uma química, fiquei apaixonado. Sabia, dentro de mim, que eu queria ser atleta. O esporte me ensinou a ter uma autoestima melhor. Me sentia livre, sentia meu coração bater, as pessoas paravam de me olhar com aquele estereótipo de cadeirante e coitadinho e passavam a me olhar como uma pessoa que está vivendo”.



Na vida da nadadora paralímpica e dançarina Camille Rodrigues (classe S9) também não é diferente. O esporte é mais uma vez o coadjuvante em uma história marcada por percalços e muitas conquistas. Por conta de uma má formação congênita, Camille teve a perna amputada ainda criança
“Aos três anos tive que viver com essa perna bem menor, e isso gerou algumas atrofias, de coluna, bacia… Foi aí que entrou o esporte na minha vida. A natação veio como uma indicação médica e ali começou a nascer tudo. O autoconhecimento, saber perder, ganhar, respeitar o próximo e ter independência.”
Camille começou sua carreira de atleta aos 15 anos e atualmente compete pelo Clube de Regatas Vasco da Gama. Aos 29 anos, ela tem no currículo oito medalhas em Jogos Parapan-Americanos, além de ser detentora de vários recordes nacionais em sua classe. Camille destaca o quanto o esporte foi essencial em sua trajetória:
“Ajudou muito na minha autonomia, independência, responsabilidade e me fez protagonista da minha vida. Foi pelo esporte que saí de casa, que aprendi a ganhar, a perder, a respeitar, e saber que aquilo só dependia de mim. O esporte me ajudou em todas as fases, em todos os quesitos da minha vida.”
Mesmo com as inúmeras vitórias e medalhas, para Camille, graças a sua base familiar, a maior conquista pessoal foi a independência: “Para uma pessoa com deficiência, que nasceu no interior, me tornar independente foi a minha maior conquista pessoal. Apesar dos bens materiais, como casa e carro, acho que a minha maior conquista pessoal foi conseguir ser uma mulher independente.”



Suas realizações não foram apenas dentro das piscinas. Por meio das redes sociais, a atleta compartilhou com o público uma outra paixão e talento: a dança! A fama na web rendeu convites. Esteve no clipe de grandes artistas como Lucas Lucco, Parangolé, entre outros, dançou com Anitta no palco do Prêmio Multishow, e em 2018 participou da abertura do “Fantástico”, em comemoração dos 45 anos do programa da TV Globo: “Foi uma grande representatividade que eu levei. Os PCDs estão ali no horário nobre e isso me dá um orgulho muito grande”.
E seus planos e sonhos não param por aí. Camille conta que no futuro pretende se dedicar à nutrição:
“Ainda sou atleta, a natação ainda tem uns 80% da minha vida, mas estou em transição de carreira para nutricionista”.
Conheça um pouco mais da Camille Rodrigues em seu Instagram.