Capacitismo: o inconsciente que derrota a inclusão

Mulher sorridente em cadeira de rodas motorizada, usando óculos escuros, blusa florida azul e calça jeans. Ela está em um parque arborizado, ao lado de um lago com muitas folhas de vitória-régia na superfície. O caminho é de cimento, rodeado por grama verde e árvores altas, incluindo palmeiras. O clima parece agradável, com céu parcialmente nublado e luz do sol suave. Ao fundo, há mais vegetação e um ambiente tranquilo e natural.
Esther Duarte, psicóloga do CPB\ Foto: arquivo pessoal

Antes do jogo começar

Aqui, no Blog Inspiração Paralímpica, trazemos semanalmente histórias de pessoas com deficiência que fazem acontecer. Porém, existem fatores que fogem dos resultados práticos e que continuam gerando derrotas dentro do esporte e na sociedade. Vamos começar com definições práticas destes elementos, segundo o Dicionário Oxford.
– Capacitismo: discriminação ou preconceito contra pessoas com deficiência;
– Discriminação: faculdade de discriminar, distinguir; discernimento. Ação ou efeito de separar, segregar, pôr à parte;
Preconceito: qualquer opinião ou sentimento concebido sem exame crítico. Sentimento hostil, assumido em consequência da generalização apressada de uma experiência pessoal ou imposta pelo meio; intolerância.
Lendo as definições, ficou claro que o boicote à inclusão acontece dentro da cabeça das pessoas e, por óbvio, ninguém se admite preconceituoso de forma consciente. O capacitismo acontece, principalmente nas entrelinhas e nos pequenos gestos. Por isso, decidimos conversar com especialistas sobre o que acontece no inconsciente para perpetuar práticas de discriminação na sociedade em plena era da informação.
Para Esther Duarte, psicóloga do Comitê Paralímpico Brasileiro (CPB) e cadeirante, o preconceito está ligado à falta de conhecimento. “A criação da pessoa, a falta de contato com o diferente, o ambiente e contexto da sua formação, e a reprodução de alguns comportamentos de pessoas ao redor, sem nem ao menos entender o motivo de estar reproduzindo determinadas atitudes, podem explicar o preconceito”, analisa.
Especialista em psicologia do esporte, o professor de educação física e psicólogo do CPB André Luis Aroni explica que o acesso à informação não está diretamente ligado à mudança de paradigma sobre a inclusão de pessoas com deficiência. “Leva um tempo para as pessoas se acostumarem com algo diferente daquilo com o que estavam acostumadas. Nem sempre o fato de disponibilizar uma informação faz com que um comportamento ou opinião mudem. Existe um sistema complexo de valores e questões éticas e morais. Sempre vejo que o grande problema da nossa sociedade é a questão da educação”, detalha.
É praticamente impossível cravar se comportamentos capacitistas são gerados pelo medo do diferente ou são parte de uma decisão de ser cruel, justificada pela necessidade de defender uma opinião já estabelecida. Mesmo com boa intenção, há quem discrimine querendo elogiar. “Mesmo que você não chegue ao pódio, já é um herói por tentar”, “é um milagre você estar competindo”, “nunca imaginei que alguém com deficiência pudesse morar sozinho” são frases problemáticas. “Isso pode ser interpretado como uma agressão, mesmo sem ser agressivo”, aponta Aroni.

Virando o jogo

O que se pode fazer de imediato para transformar o nosso inconsciente e, posteriormente, nossos comportamentos é observar atentamente e entender como funciona o universo das pessoas com deficiência, seja ela qual for. Por exemplo: aqui no Inspiração, já publicamos uma lista de expressões capacitistas que devem ser evitadas; ou seja, até na forma de se referir a situações do cotidiano é possível adicionar uma camada de empatia e se comunicar contribuindo com a inclusão de pessoas com deficiência.
“Quando há qualquer mau comportamento ou comportamento de capacitismo, a melhor forma de remediar é pedindo desculpas, assumir que conhece pouco o assunto. A boa educação e o respeito são bons argumentos. Ninguém é perfeito, todos erramos, mas é importante reconhecer o erro”, recomenda o especialista em psicologia do esporte.
E você? Já parou para pensar como o seu inconsciente sabota suas tentativas de mudança de comportamento mesmo quando suas atitudes não combinam com seus objetivos? Na semana que vem, o Blog Inspiração Paralímpica volta com mais informação e reflexão. Até mais!