A inclusão por meio da paixão pela dança

O amor de Carla Maia pela dança a acompanha desde cedo. A brasiliense era líder do corpo de baile da banda de seu colégio e viajava o Brasil inteiro para apresentações. Mas, aos 17 anos, perdeu o movimento dos braços, tronco e pernas após ter um sangramento raro na medula. Foram três anos que ela mesma descreve como uma espécie de “luto”, por acreditar que era o fim de tudo

“Quando fiquei tetraplégica, transferi para mim mesma todos os preconceitos que eu tinha em relação às pessoas com deficiência. Achava que minha vida tinha acabado. Depois desses três anos comecei a me questionar: ‘Por que eu não tinha direito de ser feliz? Só porque eu era cadeirante? Por que não podia fazer as coisas que queria? Por que não podia viver os sonhos que eu tinha quando era andante? Então, caiu essa ficha de que podia sim ser feliz e ir atrás das minhas coisas.”

Foi então que Carla decidiu viver intensamente. Hoje, aos 39 anos, ela não só se consolidou como uma grande paratleta de tênis de mesa – que já foi oito vezes campeã brasileira da classe dois, como realizou outros sonhos. A brasiliense se formou em jornalismo, foi a primeira repórter cadeirante de um jornal factual do Brasil, e atualmente é repórter da TV Brasil. Além disso, retomou sua paixão pela dança ao descobrir que era possível executá-la sobre a cadeira de rodas, e com um bônus: inspirar outras pessoas. Em 2018 criou o grupo de dança Street Cadeirante, um projeto social de dança voltado para pessoas cadeirantes. Carla conta que nada disso teria sido possível se não fosse o esporte:

“A grande virada da minha vida foi o esporte que me proporcionou. Ele me trouxe essa autonomia e o empoderamento que eu poderia fazer tudo que quisesse. O esporte me trouxe de volta, foi a primeira vez que me senti de novo tendo uma vida”

O tênis de mesa entrou na sua vida em 2003, através de um trabalho final de curso da faculdade. Na ocasião, Carla entrevistou Iranildo Espíndola, um dos pioneiros da modalidade e seu técnico, Zé Ricardo, se interessou pelo seu talento no esporte.

“Tinha conhecido o Iranildo no Hospital Sarah, quando estava lá como paciente externa. Jogava ping pong lá com ele de brincadeira. Quando fui entrevistá-lo, o Zé Ricardo ficou doido para que eu treinasse com ele. Naquela época não havia meninas na minha categoria. Então, se eu entrasse, seria a primeira no Brasil”.

No mesmo ano, após dois meses de treino, ela disputou o Parapan do tênis de mesa, ficou em segundo e por muito pouco não se classificou para os Jogos Paralímpicos da Grécia:

“Na final, eu podia perder por 3 x 2 que iria para Atenas, mas perdi de 3 x 1. Por um set. Isso me revoltou demais, mas decidi que iria para os Jogos de Atenas de qualquer jeito”.

E ela foi. Carla cobriu a competição por um projeto da faculdade e ali selou de vez sua relação com o esporte e com a modalidade. A jornalista diz que a experiência a mudou completamente. Foi desafiador e transformador:

“Ali aprendi que conseguia dar conta de tudo se eu me adaptasse, e virei uma pessoa super independente, porque comecei acreditar que podia fazer tudo. Tudo bem que não estava lá como atleta, fui como jornalista nessa cobertura, mas passei perrengues e foi o esporte que me trouxe essa autonomia”.

Depois de Atenas, Carla passou a ser da Seleção Brasileira de Tênis de Mesa.

E veio a dança…

Mesmo com sua brilhante trajetória na TV e nas quadras, a brasiliense ainda não se sentia 100% completa. Ela sentia falta da dança, que esteve em sua vida desde criança e era uma grande paixão: “Fiquei anos tentando voltar a dançar. Procurei alguns professores que não sabiam muito bem o que fazer. Eles me perguntavam: ‘o que é que você quer dançar?’, e eu não sabia”.

Foi através de um convite para representar o Brasil no primeiro Miss Mundo Cadeirante, realizado na Polônia, em 2017, que Carla encontrou a motivação que faltava: “Lá a gente fazia coreografias para o dia do desfile e treinava de nove horas da manhã até às nove horas da noite”.

No retorno para o Brasil, por intermédio de uma amiga, conheceu o street dance, se encantou e se matriculou em uma academia em Brasília: “Era a única cadeirante da turma, tinha vergonha. Mas como voltei muito decidida da Polônia, enfrentei esse medo. Foi muito legal. Dançar mexe muito com a sua alma, com a sua autoestima e me sinto poderosa quando danço, livre e feminina. A dança para mim é um reencontro com a minha alma mesmo, é a hora que reencontro a Carla que andava.”

A realização de dançar novamente era tanta, que ela quis compartilhar a experiência com outras pessoas. Em 2018, sugeriu para a dona da academia e para o coreógrafo, que criassem uma turma só para cadeirantes: “Eles toparam e a gente começou a fazer os projetos juntos.

Assim surgiu a companhia Street Cadeirante. Deu muito certo por um tempo, depois a gente tinha objetivos diferentes e nos separamos. O ‘Street Cadeirante’ me ajuda a ajudar quem precisa com alegria”.

O que no início eram apenas aulas entre amigos, atualmente, três anos depois, cresceu e conta com dois eixos. O primeiro é o “Street Cadeirante Show”, grupo de Brasília, que ensaia semanalmente e realiza apresentações pelo país e o segundo é o “Street Cadeirante Virtual”, com aulas on-line e gratuitas via Zoom, uma vez por mês, para pessoas com deficiências físicas em qualquer lugar do país e do mundo.

Para Carla, o projeto mostra a força da dança no que diz respeito à inclusão:

“A gente consegue estar em qualquer lugar. Além de mostrar toda a eficiência, todo protagonismo de quem está se apresentando, isso chama muita atenção da sociedade, de quem está assistindo. E aí eu levo essa mensagem de inclusão e da importância de acessibilidade, empoderamento, da pessoa com deficiência. Inclusão é a gente não ter limite nos sonhos. Inclusão é a gente saber que a gente pode tudo, que a gente nasceu para conquistar e que é possível ter uma vida incrível, mesmo com deficiência.”

“Uma vida incrível não é uma vida livre de problemas. A inclusão é você poder sonhar com essa vida incrível e saber que ela é possível, não se limitar”

Conheça um pouco mais sobre a Carla em seu Instagram e sobre o projeto Street Cadeirante.