Patrícia Moraes
30 de Janeiro de 2026

Por volta das nove da manhã, em São Luís, capital do Maranhão, Wagner Moreira inicia o expediente ligando o computador e acessando sistemas que movimentam fundos de investimento de um dos maiores bancos do país. Do outro lado da tela estão servidores, códigos e operações financeiras que circulam no eixo econômico São Paulo–Faria Lima. Do lado de cá, está a casa onde ele mora com a esposa e o filho de quatro anos.
Entre esses dois mundos, Wagner constrói sua trajetória profissional: engenheiro de software que se tornou uma pessoa com deficiência visual na juventude e que hoje atua no mercado financeiro guiado por leitores de tela.
“Hoje eu sou engenheiro de software. Trabalho na área de fundos de investimento, na lógica de aplicação, resgate e movimentação. Já estou lá há quatro anos e meio”, conta. O modelo remoto, para ele, não é conveniência, mas permanência. “Eu consigo trabalhar aqui do Maranhão. Se eu tivesse que ir para São Paulo, eu ia precisar mudar toda a minha vida. Além disso, esse recurso não ficaria aqui, ia circular todo lá. Do jeito que está hoje, eu consigo trabalhar, estar próximo da minha família e continuar contribuindo com a economia do meu estado”, acrescenta.
Wagner nasceu em Governador Nunes Freire, cidade pequena do interior maranhense. Aos 20 anos, um acidente de carro marcou o início de sua vivência como pessoa com deficiência visual. Em 2020, realizou o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) e ingressou no curso de Análise de Sistemas pelo Programa Universidade para Todos (ProUni). Estudou durante a pandemia, em ambiente virtual, onde aprendeu a navegar com leitores de tela e desenvolveu o que chama de “macetes” para enfrentar barreiras digitais. “Sou uma pessoa com deficiência visual total, mas com a tecnologia, hoje a gente consegue ter uma autonomia muito maior.”
No fim de 2021, participou de um bootcamp, um programa de formação em tecnologia focado em empregabilidade e frequentemente direcionado à diversidade. Foi selecionado e começou a trabalhar enquanto ainda cursava a graduação. Vieram promoções, certificações em computação em nuvem e arquitetura de sistemas. Hoje, ele resume sua rotina de forma simples: “Entro às nove, saio às seis. O mais importante são as entregas. Às vezes faço implantações à noite, quando subimos novas funcionalidades para produção. É assim que funciona”, explica.
Wagner sabe que sua história ainda não é regra. “Eu acho que sou exceção”, diz. Não apenas pelo cargo técnico, mas pelas oportunidades. “No mercado de trabalho, a gente sempre precisa provar que é capaz. Mostrar que conseguimos entregar resultado, do nosso jeito, desde que tenhamos oportunidades”.
Atravessando o setor privado e chegando ao serviço público, Julianne Melo vive outra dimensão desse mesmo desafio. Recém-aprovada em um concurso federal, ela relata que o ingresso na administração pública revelou barreiras atitudinais e a necessidade de ajustes institucionais para garantir melhores condições de acolhimento e permanência de pessoas com deficiência.
Um dos principais entraves, segundo ela, está na dificuldade de acesso ao trabalho remoto como alternativa de acessibilidade. “A expectativa era de que, depois da posse, parte desses pontos fosse encaminhada. Mas isso não aconteceu. Ainda no estágio probatório, muita gente fica insegura de apresentar essas demandas”, afirma.
Para Julianne, a ausência de diretrizes mais específicas sobre o tema acaba limitando as possibilidades de adaptação e permanência no serviço público, especialmente para servidores com deficiência que enfrentam obstáculos no deslocamento e no ambiente físico de trabalho.
Quando o deslocamento vira obstáculo
Enquanto no setor público o acesso ao trabalho remoto ainda encontra barreiras institucionais, no cotidiano urbano de São Paulo a distância entre casa e trabalho segue como um dos principais filtros de permanência no mercado formal. É nesse ponto que entra a rotina de Patrícia Moraes, que atua no Comitê Paralímpico Brasileiro (CPB) e integra o Projeto Inspiração Paralímpica, voltado à inclusão, empregabilidade e geração de renda para pessoas com deficiência.
Também com deficiência visual, Patrícia trabalha em regime híbrido, com dois dias de home office por semana. Mesmo sendo uma parcela pequena da jornada, o impacto é profundo. “Mesmo sendo só duas vezes na semana, faz muita diferença”, afirma.
Moradora da zona leste da capital paulista e com local de trabalho na zona sul, ela enfrenta diariamente um deslocamento que consome cerca de duas horas para ir e duas para voltar, utilizando metrô e trem. “Nos dias presenciais eu acordo às cinco da manhã. Saio de casa entre 6h50 e 7h10 para conseguir chegar às nove. Saio às seis da tarde e chego em casa quase oito da noite”, descreve.
Nos dias em que trabalha de casa, o tempo ganha outro ritmo. “Em casa, posso acordar com mais tranquilidade, preparar meu café, bater o ponto e começar a trabalhar”, detalha. Para ela, o impacto é imediato na produtividade e na saúde. “Em casa, sinto minha produtividade muito maior. Para mim, o home office é inclusão na prática”, defende.
A experiência de Patrícia mostra como o trabalho remoto também pode funcionar como ferramenta de permanência.
Para a superintendente de Inclusão e Empregabilidade da Secretaria Municipal Extraordinária da Pessoa com Deficiência de São Luís (MA), Priscilla Selares, essa alternativa precisa ser acompanhada de políticas de cuidado e integração.
“O trabalho remoto é uma oportunidade importante, mas precisa ser visto com atenção. É fundamental garantir que a convivência com os demais colaboradores continue existindo, seja por reuniões, encontros regulares ou ações de conscientização”, afirma.
Entre estar e permanecer
Priscilla Selares defende que o protagonismo esteja nas mãos da própria pessoa com deficiência. “O teletrabalho não pode ser imposto. Ele precisa ser uma escolha, uma alternativa, não uma obrigação”. Para a gestora pública com experiência na área, o risco é que o remoto se transforme em invisibilidade. “É importante que as equipes saibam que aquele trabalho está sendo feito por uma pessoa com deficiência, que contribui da mesma forma para os resultados”, lembra.
Entre apartamentos, casas e quartos que se tornam escritórios, servidores públicos que lutam por adaptação institucional e trajetos urbanos pouco acessíveis, as histórias se conectam em um ponto comum: a permanência. E permanecer também depende de oportunidade e adaptação.
No fim do dia, Wagner Moreira, profissional que abre essa reportagem, encerra mais uma jornada de trabalho diante do computador. Do quarto ao lado, o filho chama. Ele fecha o sistema, desliga a máquina e atravessa poucos metros até a sala. Não precisou ir de ônibus, metrô ou avião. Ainda assim, atravessou o país inteiro através da internet e sistemas informacionais. E, nesse deslocamento invisível, sustenta algo maior do que uma rotina de trabalho: o direito de existir profissionalmente sem abandonar seu território e sua própria história.
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E você, leitor do Inspiração Paralímpica, percebe oportunidades e desafios para pessoas com deficiência no trabalho remoto? Conte nos comentários.