Oficinas de fotografia para pessoas com deficiência visual desafiam o senso comum

Foto borrada de uma pessoa em um ambiente escuro, com luzes fortes e coloridas ao redor. A pessoa está iluminada por uma luz amarela ou alaranjada, que destaca seu rosto e parte do corpo, mas o movimento e o desfoque tornam difícil identificar detalhes. O fundo é predominantemente escuro, com algumas luzes verdes e vermelhas desfocadas no canto superior esquerdo. A imagem transmite uma sensação de movimento ou de ambiente noturno.
Instante capturado entre luzes e sombras \ Foto: Tânia Maria Neves

Algumas pessoas podem duvidar da viabilidade de aulas de fotografia para pessoas com deficiência visual. Entretanto, os projetos Vivências Inclusivas, do Distrito Federal, e Escola de Fotógrafos Cegos, do Espírito Santo, estão aqui para romper com a ideia de que fotografia não é uma linguagem a ser experimentada por pessoas cegas ou com baixa visão.

Em Vila Velha, uma parceria entre a Associação Sociedade Cultura e Arte (Soca Brasil) e o coletivo Poéticas da Cena Contemporânea já realizou duas edições do projeto Escola de Fotógrafos Cegos, em 2023 e 2024. Neste ano, a parceria promove a oficina fotográfica “Um outro olhar”, para mulheres com deficiência visual. No próximo dia 31, durante o encerramento da oficina, haverá uma exposição com as fotografias produzidas na atividade.

Rejane Arruda, idealizadora e diretora artística do projeto, explica que a mesma metodologia da Escola foi usada nesta oficina. “Partimos de algumas premissas; uma delas é que o olhar é uma construção, ele não é dado pelo olho biológico. Além disso, a fotografia que a gente produz tem estatuto de poética, sendo assim é lacunar, ela esconde ao invés de dar a ver.”

Rejane conta que usa a linguagem como principal ferramenta de trabalho. “Dá pra se transmitir qualquer coisa pela linguagem; todos os conceitos, as imagens e os ambientes são descritos.”

Mas não só. Rejane conta que usa também o tato em suas aulas. “Usamos algumas ferramentas táteis no início, para explicar enquadramento, zoom, desfoque.” Ela conta que em certas práticas descreve o ambiente e o desenha com o dedo nas costas da pessoa que está com a câmera. “É um procedimento que une a linguagem verbal com o toque.”

Outra estratégia que ela usa quando o assunto é enquadramento, é orientar os alunos que se encostem em um batente de janela, de porta, de uma pilastra e utilizem a borda deste objeto em primeiro plano como um duplo enquadramento. “Assim, além do enquadramento fotográfico, eles criam uma borda com esse objeto onde eles se encostam. Isso cria profundidade, desfoque, poética.”

Já pelo Distrito Federal, o projeto Vivências Inclusivas realiza oficinas e saídas fotográficas com foco na inclusão de pessoas com deficiência por meio da linguagem visual. O resultado da terceira edição do projeto será exibido na exposição “Nada Sobre Nós, Sem Nós”, de 5 de agosto a 7 de setembro, no Museu da República, em Brasília.

Idealizado por Juliana Peres, ativista que tem deficiência intelectual, o projeto foi criado “com o objetivo de ensinar fotografia para a pessoa com deficiência, de uma forma que ela saísse um pouco da sala de aula e de seu ambiente de conforto”. As oficinas são ministradas pela professora Isabella Gurgel e abertas para pessoas com deficiências variadas.

As saídas fotográficas acontecem na cidade ou em parques. No caso específico de participantes com deficiência visual, a professora conta que perguntou às pessoas cegas e de baixa visão como ela poderia ensinar fotografia para elas. “Uma das participantes então me disse: Eu quero fotografar o pôr-do-sol, então eu vou pedir para alguém me levar para fora de minha casa por volta de 17h, para um lugar mais aberto, e vou esperar sentir a minha pele começar a esfriar, que é o que acontece quando o sol começa a se pôr.” Gurgel relata que a partir daí ela entendeu que a metodologia tinha que ter o fundamento no tato, na audição e na descrição.

Nas saídas, ela descreve o máximo possível o ambiente em que estão e os alunos dizem se querem ou não fotografar aquilo. “O sensorial é mais importante do que a teoria. É lógico que a gente ensina como ligar a câmera, como trocar a bateria, o que é o cartão de memória. A gente ensina o básico, mas o que mais trabalhamos é a composição fotográfica.”

A servidora pública Mayrla Rodrigues tem deficiência visual e participou das oficinas. Ela conta que sempre amou arte e, quando começou a perder a visão, com 18 anos, achou que não seria mais possível apreciar fotografia, decoração. Mas conheceu pela internet um rapaz cego que era fotógrafo e então entendeu que sim, era possível. Sobre a saída fotográfica com o projeto Vivências Inclusivas relata ter sido uma “experiência maravilhosa”. “A gente saiu pra rua para fotografar e sempre tinha alguém do meu lado, audiodescrevendo os espaços, as imagens. É possível [uma pessoa com deficiência visual fotografar] contanto que haja esses recursos acessórios, como audiodescrição e condução nos espaços.”

SERVIÇO:
Associação Sociedade Cultura e Arte (Soca Brasil) – https://www.socabrasil.org e https://www.instagram.com/socabrasil/
Ainda não há previsão de nova turma do projeto Escola de Fotógrafos Cegos para o ano que vem, mas no perfil da Soca Brasil é possível encontrar inscrições abertas para outras atividades, como teatro, cinema, vídeo e música.

Escola de Fotógrafos Cegos – https://www.escoladefotografoscegos.org/
O site do projeto conta com mostras virtuais acessíveis das fotografias produzidas na oficina.

Exposição “Um outro olhar”
Dia 31/07, de 16h às 19h, no ponto de cultura Soca Brasil
Rua Vinte e Quatro, 255, Santa Mônica Popular, em Vila Velha/ES
Evento acessível

Vivências Inclusivas – https://vivenciasinclusivas.com.br/ e https://www.instagram.com/vivenciasinclusivas/

Exposição “Nada Sobre Nós, Sem Nós”
De 5/8/25 a 7/9/25, no Museu da República, em Brasília/DF.

Gostou de conhecer estes cursos para ensinar fotografia a pessoas com deficiência visual? Conte nos comentários o que achou mais interessante nestas experiências.