Patrícia Moraes
14 de Novembro de 2024

Modalidade com pouco mais de dez anos no Brasil, o futebol em cadeira de rodas ganha adeptos no país. Criado na França e no Canadá, no final dos anos 1970, o Power Soccer – outro nome pelo qual é conhecido – já tem equipes em vários estados, como Rio de Janeiro, São Paulo, Santa Catarina e Ceará. Segundo Fabiano de Lima, presidente da ABFC, a Associação Brasileira de Futebol em Cadeira de Rodas, existem cerca de 100 atletas praticantes no Brasil atualmente.
O número parece pequeno, mas é um salto grande comparado aos últimos anos. O fato de ser praticado por atletas com deficiência severa, como tetraplegia e paralisia cerebral, faz com que pessoas, mesmo que interessadas, demorem um pouco a se arriscar no esporte.
“Muitas pessoas resistem em um primeiro momento. Estamos falando de deficiências mais severas, em que as pessoas ficam mais em casa. Mas quando começam a praticar, gostam, apaixonam-se e querem estar sempre treinando e participando das competições”, disse Fabiano.
Ele conheceu o Power Soccer ao procurar uma atividade esportiva para seu filho Daniel, que hoje tem 18 anos. Com distrofia muscular de Duchenne, uma doença neuromuscular genética que afeta o tecido muscular, Daniel teve indicação médica para praticar esporte.
“Conhecemos o Power Soccer, fomos atrás de mais informações e o Daniel gostou. Claro, um pouco resistente no início, mas logo se interessou a treinar e a praticar”, contou Fabiano.
O fato de ter regras básicas semelhantes ao futebol convencional, como o objetivo de fazer gols, faz com que o interesse dos praticantes cresça depois que começam a praticar. A cadeira utilizada é motorizada, com algumas particularidades. Ela é um pouco mais baixa do que a cadeira usada no dia a dia, tem uma “barra” na frente para conduzir a bola e é mais veloz em relação às cadeiras comuns – comum limite de 10 km/h.
“As cadeiras custam, em média, 10 mil dólares [R$ 57 mil]. Um valor alto. São importadas dos Estados Unidos. Uma equipe tem quatro atletas em quadra, um no gol e três na linha. Vale ressaltar, ainda, que são necessárias cadeiras reservas. Dá para calcular que não é barato”, contou Jaime Torres, que comanda e treina o Rio de Janeiro Power Soccer Clube, uma das principais equipes do país.
Jaime, de 45 anos, é ex-goleiro de handebol e jogou na Seleção Brasileira. Desde os tempos de atleta profissional de alto rendimento, interessou-se pelo paradesporto, resquícios de lembrança do pai, engenheiro que se engajou em causas de pessoas com deficiência.
Em torneios oficiais, as cadeiras usadas precisam ser específicas para a modalidade. Porém, em determinados momentos, alguns atletas utilizam equipamentos do dia a dia adaptados.
As regras
A quadra utilizada para o Power Soccer tem as dimensões de uma de basquete (28 metros de comprimento por 15 metros de largura). As partidas são divididas em dois tempos de 20 minutos, com um intervalo de 10 minutos.
Cada equipe tem quatro jogadores, divididos em três na linha e um goleiro. É uma modalidade mista, ou seja, homens e mulheres podem jogar ao mesmo tempo. A bola é maior e mais leve do que a tradicional do futebol, com 32,5 cm de diâmetro.
Lucas Dutra Fernandes tem 21 anos e é considerado o principal jogador de Power Soccer do Brasil atualmente. Ele começou a praticar a modalidade aos sete anos, depois de achar a bocha “um pouco parada”. Torcedor do Fluminense, Lucas sempre gostou de futebol. Jogava muito videogame com os amigos, e seu pai, Bruno, descobriu que havia uma modalidade de futebol para pessoas com deficiências motoras mais severas.
“Tentei o rúgbi também, mas achei muito violento. Comecei no Power Soccer no Nova Ser, que foi o primeiro time de Power Soccer do Brasil. Mas chegou um momento que queríamos algo mais competitivo, não com cara de projeto social. Então saí e fundamos o Rio de Janeiro Power Soccer, com a ajuda dos meus pais e de outras pessoas”, contou Lucas.
Como treinavam em um local público, no Aterro do Flamengo, no Rio de Janeiro, muitas pessoas viam e, aos poucos, os interessados passaram a aparecer durante os treinamentos, quando a equipe cresceu. Logo no primeiro Campeonato Brasileiro, conquistou o título, batendo na final justamente o Novo Ser, seu primeiro clube.
“Eu me sinto realizado com o Power Soccer. Ao mesmo tempo, tento passar minha experiência àqueles que estão começando agora, que estão tentando evoluir”, disse Lucas.
Em paralelo ao Power Soccer, Lucas se manteve praticando a bocha, na classe BC3 (alto grau de comprometimento motor). Já esteve na Seleção Brasileira e sonha em participar dos Jogos Paralímpicos de 2028, em Los Angeles.
Já a entrada do Power Soccer no calendário do megaevento depende de alguns fatores. A presença da modalidade em todos os continentes é um dos pré-requisitos e o esporte na África ainda está em implementação.
“O Power Soccer tem que fazer o dever de casa, deixar tudo certinho e pronto para tentar estar nos Jogos Paralímpicos. Quem sabe daqui a oito anos?”, questionou Lucas.
E você, leitor? Já teve oportunidade de assistir a uma partida de futebol em cadeira de rodas ou tem interesse em praticar a modalidade? Conte nos comentários. Na semana que vem a gente volta com mais histórias inspiradoras. Até lá!