Patrícia Moraes
10 de Outubro de 2024

Em 2008, aos 21 anos, a vida de Marianne Mayumi Miura mudou. Estudante de engenharia, ela um dia foi trabalhar e começou a sentir fraqueza. Na época havia sido diagnosticada com lúpus, mas a fraqueza foi tanta que Mayumi, como todos a chamam, acabou internada. Logo ela percebeu que não sentia mais as pernas.
O diagnóstico correto foi dado dias depois: miastenia gravis, uma doença autoimune que impede a comunicação entre os nervos e o músculo. No caso de Mayumi, a gravidade a levou a deixar o hospital de cadeira de rodas. Na sequência, ela ainda sofreu com uma catarata que afetou sua visão.
“Eu adquiri a deficiência na fase adulta, gostava de estudar, não gostava de ficar parada. Foi difícil o período que fiquei em casa após saber que tinha a doença, também fiquei com a visão afetada, com cerca de 10%. Eu sentia falta de conviver com as pessoas”, contou Mayumi.
Foi então que ela soube, em 2014, de um local em que pessoas com deficiência poderiam ser bailarinas. A Associação Fernanda Bianchini foi criada em 1995, pela bailarina e fisioterapeuta Fernanda Bianchini Saad. Desde então recebe pessoas com deficiência visual, na maioria, mas também com outras deficiências para praticar a dança e, atualmente, outras atividades como a música e yoga. É a única no mundo que realiza esse trabalho.
“Fui em um sábado, e logo nesse primeiro dia a Fernanda já fez cair minha ficha que dava para dançar o balé clássico. Aliada à fisioterapia, a dança me ajudou a fortalecer a musculatura, aumentar a autoestima e voltar a andar”, disse Mayumi, que hoje pratica o balé em pé, com apresentações em diversos países.
Ela esteve em agosto em Paris, junto com Jéssica Lacerda Cordeiro, de 28 anos, realizando demonstrações durante os Jogos Paralímpicos. Com baixa visão, cerca de 15%, Jessica também mudou sua vida com a dança.
“Eu sofria muito bullying na escola, de alunos e de professores, porque não enxergava. Era um terror, me traumatizou muito. Era muito dependente da minha família, e sempre sonhei em dançar. Quando cheguei na associação, eu tinha muito medo do toque, mas logo na primeira aula fiquei encantada. Hoje voltei a estudar, faço faculdade de fisioterapia”, contou Jéssica, que como Mayumi hoje dá aulas para novos alunos da associação.
O toque é parte fundamental do método inédito criado por Fernanda Bianchini para que pessoas com deficiência visual possam dançar o balé clássico e também outras modalidades de dança.
“Eu comecei a dar aulas para pessoas com deficiência visual, mas muitas não têm memória visual. Então, por exemplo, eu falava que algum movimento deveria se assemelhar a um objeto, mas os alunos não tinham referência do objeto. Foi quando entendi que o método deveria ser outro, pelo toque, pela percepção corporal”, contou Fernanda.
Cada toque se transforma em um movimento, desde os mais simples do balé clássico até aqueles de maior complexidade.
Fernanda conta que sempre teve a dança em sua vida, mas nunca se considerou uma ótima bailarina. Sua família sempre fez muitos trabalhos voluntários, e um dia foi sugerido a ela que ensinasse o balé para pessoas cegas. Hoje o projeto atende 400 pessoas, mas um novo prédio está sendo construído em São Paulo, que poderá receber mais de mil pessoas.
“Hoje temos diversos tipos de arte, como yoga, balé, música, recebemos crianças e pessoas da terceira idade. Estamos vencendo o preconceito”, disse Fernanda.

Dança sobre rodas
Adelina Oliveira Perez começou a dança em cadeira de rodas como uma terapia e um hobbie. Com 58 anos, hoje aposentada, ela ficou paraplégica por sequelas de uma poliomielite.
Um curso aberto pela Prefeitura de Santos, cidade do litoral paulista, a interessou, em 2007. Inicialmente sua ideia era usar a dança como uma atividade física, mas a experiência foi além.
“A dança foi importante para a aceitação do meu corpo. Amar meu corpo como ele é. No começo, o professor colocava a música, preparava a coreografia, mas eu não tinha ritmo, não sabia nada, achava ridículo, pensava que aquilo não era dança, e isso me incomodava. Fazíamos apresentações, na hora não me sentia mal, mas quando via no vídeo me sentia horrível”, contou Adelina.
Adelina não desistiu, e essa sensação mudou com o passar dos anos. Ela contou que passou a aceitar seu corpo e a dança foi fundamental nesse processo.
“Eu não comprava sapato, não dava valor ao meu pé. Isso mudou, hoje estou passeando, vejo um sapato bonito na loja, quero comprar. Minha autoestima aumentou, hoje sou uma bailarina”, disse Adelina,que participa de apresentações e competições por todo o Brasil e no exterior.
Aos 15 anos, a paulista Dayse da Silva Gonçalves perdeu o movimento da cintura para baixo por causa de um erro em um procedimento cirúrgico que afetou sua medula. Hoje com 27 anos, a arquiteta começou a dançar em cadeira de rodas por convite de uma colega de faculdade.
“Foi a maneira de me conectar com meu novo corpo, de superar barreiras, tanto física quanto mental”, disse Dayse.
Segundo ela, além dos benefícios físicos, a dança em cadeira de rodas trouxe benefícios emocionais ao conectá-la a uma rede de pessoas que também praticam o esporte. Como Adelina, Dayse participa de apresentações e competições.
“Eu tenho experiência de dançar sem uma cadeira de rodas e de dançar em uma cadeira de rodas. Ambos são libertadores, mas na cadeira de rodas é ainda mais. Naquele momento É só você e você”, disse Dayse.
Da dança para a canoagem
Luis Carlos Cardoso, 39, conquistou a medalha de prata nos Jogos Paralímpicos de Paris na prova dos 200m da classe KL1. Este foi seu segundo pódio paralímpico, já que ele também tem uma prata dos Jogos de Tóquio 2020. Ants dessa trajetória cheia de medalhas, porém, a vida do atleta era dedicada à dança profissional.
“Sou de Picos, no Piauí, e sempre gostei de dançar, principalmente o forró. Sempre foi meu sonho seguir carreira dançando, e consegui deixar minha cidade para participar de várias bandas, por todo o Brasil”, contou Luís.
Ele esteve em programas de televisão, como o do apresentador Raul Gil, até que em 2008 entrou para a banda do conhecido cantor Frank Aguiar. No momento em que a dança profissional se tornava o ganha pão de Luís, uma inflamação na medula, causada por um parasita, o deixou paraplégico.
“Fiquei internado por dez dias. Foi grave, quase fiquei tetraplégico, e saí do hospital de cadeira de rodas com o diagnóstico de que nunca mais andaria. Eu tinha 25 anos”, contou o atleta.
Ele contou que não sabia mais o que faria, já que a dança era sua vida. Até aquele momento ele não tinha tido contato com outros cadeirantes, mas descobriu que se a dança não seria mais parte de sua vida, o esporte, sim.
“Indicaram continuar a praticar a dança, mas eu pensava como faria sem as pernas, já que por anos trabalhei profissionalmente. Foi quando surgiu o esporte, eu apenas fazia musculação, pelo condicionamento para a dança. Mas não praticava esporte, futebol, nada. Primeiro foi o basquete [em cadeira de rodas], e depois a canoagem”, contou.
A canoagem surgiu porque sua fisioterapeuta trabalhava com o canoísta Sebastián Cuattrin, argentino naturalizado brasileiro que ganhou 11 medalhas em quatro Jogos Pan-Americanos, uma delas de ouro na Rio-2007.
“Eu adorei aquele contato com a natureza, aquele sentimento de liberdade. Ajudou muito na recuperação, fiquei treinando o basquete e a canoagem, até que percebi que na canoagem poderia ter sequência como atleta’, disse.
Luís já participou de provas com o caiaque, depois migrou para a canoa, e o primeiro barco foi dado de presente por Frank Aguiar.
“Minha vida mudou totalmente e agradeço muito ter conhecido a canoagem”, finalizou Luís.