Destaque Archives - Comitê Paralímpico Brasileiro (CPB) https://inspiracaostage.sages4it.com/category/destaque/ Informações e orientações para Pessoas com Deficiência (PCDs) e histórias inspiradoras de atletas paralímpicos. Fri, 30 Jan 2026 14:55:50 +0000 pt-PT hourly 1 https://inspiracaostage.sages4it.com/wp-content/uploads/2022/01/favicon.png Destaque Archives - Comitê Paralímpico Brasileiro (CPB) https://inspiracaostage.sages4it.com/category/destaque/ 32 32 Histórias mostram como o trabalho remoto influencia rotina de pessoas com deficiência https://inspiracaostage.sages4it.com/historias-mostram-como-o-trabalho-remoto-influencia-rotina-de-pessoas-com-deficiencia/ https://inspiracaostage.sages4it.com/historias-mostram-como-o-trabalho-remoto-influencia-rotina-de-pessoas-com-deficiencia/#respond Fri, 30 Jan 2026 14:55:50 +0000 https://inspiracaoparalimpica.org.br/?p=8966 Por volta das nove da manhã, em São Luís, capital do Maranhão, Wagner Moreira inicia o expediente ligando o computador e acessando sistemas que movimentam fundos de investimento de um dos maiores bancos do país. Do outro lado da tela estão servidores, códigos e operações financeiras que circulam no eixo econômico São Paulo–Faria Lima. Do […]

Este post Histórias mostram como o trabalho remoto influencia rotina de pessoas com deficiência apareceu primeiro no Comitê Paralímpico Brasileiro (CPB).

]]>
Um homem sentado numa cadeira gamer preta, em um canto de parede branca, ao lado de uma mesa de computador. Ele usa camiseta polo vermelha e jeans claro, está com fones de ouvido grandes e óculos escuros. Ele está reclinado, com a mão esquerda esticada apoiada perto do notebook aberto na mesa e a mão direita sobre a coxa. Na mesa há um notebook, um teclado com iluminação colorida (RGB) e cabos visíveis. A expressão e a postura passam um ar relaxado, como se estivesse descansando enquanto usa o computador.
O engenheiro de software Wagner Moreira, que trabalha no mercado financeiro a partir de sua casa, em São Luis | Foto: Arquivo Pessoal

Por volta das nove da manhã, em São Luís, capital do Maranhão, Wagner Moreira inicia o expediente ligando o computador e acessando sistemas que movimentam fundos de investimento de um dos maiores bancos do país. Do outro lado da tela estão servidores, códigos e operações financeiras que circulam no eixo econômico São Paulo–Faria Lima. Do lado de cá, está a casa onde ele mora com a esposa e o filho de quatro anos.

Entre esses dois mundos, Wagner constrói sua trajetória profissional: engenheiro de software que se tornou uma pessoa com deficiência visual na juventude e que hoje atua no mercado financeiro guiado por leitores de tela.

“Hoje eu sou engenheiro de software. Trabalho na área de fundos de investimento, na lógica de aplicação, resgate e movimentação. Já estou lá há quatro anos e meio”, conta. O modelo remoto, para ele, não é conveniência, mas permanência. “Eu consigo trabalhar aqui do Maranhão. Se eu tivesse que ir para São Paulo, eu ia precisar mudar toda a minha vida. Além disso, esse recurso não ficaria aqui, ia circular todo lá. Do jeito que está hoje, eu consigo trabalhar, estar próximo da minha família e continuar contribuindo com a economia do meu estado”, acrescenta.

Wagner nasceu em Governador Nunes Freire, cidade pequena do interior maranhense. Aos 20 anos, um acidente de carro marcou o início de sua vivência como pessoa com deficiência visual. Em 2020, realizou o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) e ingressou no curso de Análise de Sistemas pelo Programa Universidade para Todos (ProUni). Estudou durante a pandemia, em ambiente virtual, onde aprendeu a navegar com leitores de tela e desenvolveu o que chama de “macetes” para enfrentar barreiras digitais. “Sou uma pessoa com deficiência visual total, mas com a tecnologia, hoje a gente consegue ter uma autonomia muito maior.”

No fim de 2021, participou de um bootcamp, um programa de formação em tecnologia focado em empregabilidade e frequentemente direcionado à diversidade. Foi selecionado e começou a trabalhar enquanto ainda cursava a graduação. Vieram promoções, certificações em computação em nuvem e arquitetura de sistemas. Hoje, ele resume sua rotina de forma simples: “Entro às nove, saio às seis. O mais importante são as entregas. Às vezes faço implantações à noite, quando subimos novas funcionalidades para produção. É assim que funciona”, explica.

Wagner sabe que sua história ainda não é regra. “Eu acho que sou exceção”, diz. Não apenas pelo cargo técnico, mas pelas oportunidades. “No mercado de trabalho, a gente sempre precisa provar que é capaz. Mostrar que conseguimos entregar resultado, do nosso jeito, desde que tenhamos oportunidades”.

Atravessando o setor privado e chegando ao serviço público, Julianne Melo vive outra dimensão desse mesmo desafio. Recém-aprovada em um concurso federal, ela relata que o ingresso na administração pública revelou barreiras atitudinais e a necessidade de ajustes institucionais para garantir melhores condições de acolhimento e permanência de pessoas com deficiência.

Um dos principais entraves, segundo ela, está na dificuldade de acesso ao trabalho remoto como alternativa de acessibilidade. “A expectativa era de que, depois da posse, parte desses pontos fosse encaminhada. Mas isso não aconteceu. Ainda no estágio probatório, muita gente fica insegura de apresentar essas demandas”, afirma.

Para Julianne, a ausência de diretrizes mais específicas sobre o tema acaba limitando as possibilidades de adaptação e permanência no serviço público, especialmente para servidores com deficiência que enfrentam obstáculos no deslocamento e no ambiente físico de trabalho.

Quando o deslocamento vira obstáculo

Enquanto no setor público o acesso ao trabalho remoto ainda encontra barreiras institucionais, no cotidiano urbano de São Paulo a distância entre casa e trabalho segue como um dos principais filtros de permanência no mercado formal. É nesse ponto que entra a rotina de Patrícia Moraes, que atua no Comitê Paralímpico Brasileiro (CPB) e integra o Projeto Inspiração Paralímpica, voltado à inclusão, empregabilidade e geração de renda para pessoas com deficiência.

Também com deficiência visual, Patrícia trabalha em regime híbrido, com dois dias de home office por semana. Mesmo sendo uma parcela pequena da jornada, o impacto é profundo. “Mesmo sendo só duas vezes na semana, faz muita diferença”, afirma.

Moradora da zona leste da capital paulista e com local de trabalho na zona sul, ela enfrenta diariamente um deslocamento que consome cerca de duas horas para ir e duas para voltar, utilizando metrô e trem. “Nos dias presenciais eu acordo às cinco da manhã. Saio de casa entre 6h50 e 7h10 para conseguir chegar às nove. Saio às seis da tarde e chego em casa quase oito da noite”, descreve.

Nos dias em que trabalha de casa, o tempo ganha outro ritmo. “Em casa, posso acordar com mais tranquilidade, preparar meu café, bater o ponto e começar a trabalhar”, detalha. Para ela, o impacto é imediato na produtividade e na saúde. “Em casa, sinto minha produtividade muito maior. Para mim, o home office é inclusão na prática”, defende.

A experiência de Patrícia mostra como o trabalho remoto também pode funcionar como ferramenta de permanência.
Para a superintendente de Inclusão e Empregabilidade da Secretaria Municipal Extraordinária da Pessoa com Deficiência de São Luís (MA), Priscilla Selares, essa alternativa precisa ser acompanhada de políticas de cuidado e integração.

“O trabalho remoto é uma oportunidade importante, mas precisa ser visto com atenção. É fundamental garantir que a convivência com os demais colaboradores continue existindo, seja por reuniões, encontros regulares ou ações de conscientização”, afirma.

Entre estar e permanecer

Priscilla Selares defende que o protagonismo esteja nas mãos da própria pessoa com deficiência. “O teletrabalho não pode ser imposto. Ele precisa ser uma escolha, uma alternativa, não uma obrigação”. Para a gestora pública com experiência na área, o risco é que o remoto se transforme em invisibilidade. “É importante que as equipes saibam que aquele trabalho está sendo feito por uma pessoa com deficiência, que contribui da mesma forma para os resultados”, lembra.

Entre apartamentos, casas e quartos que se tornam escritórios, servidores públicos que lutam por adaptação institucional e trajetos urbanos pouco acessíveis, as histórias se conectam em um ponto comum: a permanência. E permanecer também depende de oportunidade e adaptação.

No fim do dia, Wagner Moreira, profissional que abre essa reportagem, encerra mais uma jornada de trabalho diante do computador. Do quarto ao lado, o filho chama. Ele fecha o sistema, desliga a máquina e atravessa poucos metros até a sala. Não precisou ir de ônibus, metrô ou avião. Ainda assim, atravessou o país inteiro através da internet e sistemas informacionais. E, nesse deslocamento invisível, sustenta algo maior do que uma rotina de trabalho: o direito de existir profissionalmente sem abandonar seu território e sua própria história.

Participe

E você, leitor do Inspiração Paralímpica, percebe oportunidades e desafios para pessoas com deficiência no trabalho remoto? Conte nos comentários.

Este post Histórias mostram como o trabalho remoto influencia rotina de pessoas com deficiência apareceu primeiro no Comitê Paralímpico Brasileiro (CPB).

]]>
https://inspiracaostage.sages4it.com/historias-mostram-como-o-trabalho-remoto-influencia-rotina-de-pessoas-com-deficiencia/feed/ 0
Dia Internacional do Braille reforça importância do sistema no acesso pleno à escrita https://inspiracaostage.sages4it.com/dia-internacional-do-braille-reforca-importancia-do-sistema-no-acesso-pleno-a-escrita/ https://inspiracaostage.sages4it.com/dia-internacional-do-braille-reforca-importancia-do-sistema-no-acesso-pleno-a-escrita/#respond Fri, 23 Jan 2026 17:51:53 +0000 https://inspiracaoparalimpica.org.br/?p=8959 Celebrado em 4 de janeiro, o Dia Internacional do Braille chama atenção para um sistema de leitura e escrita que, quase dois séculos após sua criação, segue central para o acesso à informação, à educação e à cidadania de pessoas com deficiência visual. Desenvolvido no século XIX por Louis Braille, que era cego, o método […]

Este post Dia Internacional do Braille reforça importância do sistema no acesso pleno à escrita apareceu primeiro no Comitê Paralímpico Brasileiro (CPB).

]]>
Uma mulher sentada à mesa lendo com as mãos um caderno em braille.

Ela está em um ambiente interno, com expressão concentrada, olhando para baixo. O cabelo está preso para trás e ela usa uma blusa sem mangas, de gola alta, em tom rosado. No pulso direito há um relógio e uma pulseira.

Sobre a mesa de madeira há um caderno grande de espiral aberto, com páginas brancas cheias de pontinhos em relevo (braille). As duas mãos estão apoiadas na página, com os dedos percorrendo as linhas.

Ao fundo, à esquerda, aparece um sofá azul com almofadas coloridas; atrás dele, uma janela com grades e uma fileira de fotos pequenas penduradas. No centro há uma porta de madeira; à direita, uma parede clara e parte de um corredor/entrada.
Judoca Wiliany Nascimento lê livro impresso no Sistema Braille | Foto: Arquivo Pessoal

Celebrado em 4 de janeiro, o Dia Internacional do Braille chama atenção para um sistema de leitura e escrita que, quase dois séculos após sua criação, segue central para o acesso à informação, à educação e à cidadania de pessoas com deficiência visual. Desenvolvido no século XIX por Louis Braille, que era cego, o método se baseia na combinação de seis pontos em relevo que permitem a representação de letras, números, sinais de pontuação e símbolos diversos.

Mais do que um recurso técnico, o Braille é a única forma de escrita que possibilita o contato direto da pessoa que não enxerga com o texto. Para a educadora Patrícia Braille, mestra em Educação Científica, Inclusão e Diversidade, esse é o principal diferencial do sistema: o contato com a escrita sem a intermediação de terceiros.

Embora reconheça a importância de outras formas de acesso à leitura, como livros falados e recursos tecnológicos, Patrícia ressalta que apenas o Braille possibilita uma experiência de leitura totalmente autônoma. “Esse contato direto e íntimo, quando uma pessoa se encontra com o livro sem mais ninguém interferindo, só o Braille é capaz de oferecer a quem não enxerga.”
Na avaliação da especialista, essa autonomia tem impacto direto na formação crítica, especialmente durante a infância. “Acredito que essa singularidade do Braille deva ser mais valorizada, sobretudo na infância, quando estamos todos buscando compreender o mundo, construir sentidos básicos.” Para ela, embora a leitura mediada por voz seja um recurso relevante, pode induzir significados até mesmo na entonação do que é pronunciado.
Patrícia também chama atenção para a ideia recorrente de que o Braille estaria ultrapassado diante da disseminação das tecnologias assistivas. “Embora analógico, o Sistema Braille também é uma tecnologia assistiva, criada por uma pessoa cega, que vem se mostrando eficiente e insubstituível em sua proposta: permitir que pessoas cegas escrevam e leiam sem interferência de mais ninguém.”
Em sua pesquisa de mestrado, a educadora defende uma “convergência de recursos acessíveis”. “Nada impede que livros falados, e-books, a navegação na internet etc, sejam associados ao braille. O mais importante é ofertar todas as formas de acesso a todas as pessoas e deixar que elas escolham aquilo que realmente atende à sua necessidade particular.”
Patrícia relata que ainda escuta que o Braille seria uma escrita segregadora ou um “produto para cegos”. Ela discorda. “Uma análise mais cuidadosa e séria sobre o cenário do livro e da leitura no contexto da acessibilidade nos leva a entender que o que segrega de verdade é a negligência do mercado editorial com a necessidade real das pessoas cegas. A não-produção de livros em Braille, essa sim, separa a sociedade em dois grupos: de um lado os que podem e do outro os que não podem ler, simplesmente porque não têm acesso ao livro. O Braille é simples, fácil, funcional e insubstituível em sua proposta.”
A experiência prática do uso do Braille aparece no relato de Wiliany Vitória Costa do Nascimento, 17, atleta de judô da Escola Paralímpica de Esportes do Comitê Paralímpico Brasileiro. Wili teve contato com o sistema ainda na infância, quando tinha 3 anos, a partir de uma atividade lúdica que simulava as células Braille.
“Ainda que hoje a tecnologia nos auxilie e esteja evoluindo cada vez mais, o Braille ainda é essencial em situações cotidianas como a leitura e compreensão de mapas, placas de sinalização, rótulos de produtos e objetos, eletrodomésticos como por exemplo micro-ondas, caixas de remédio, entre outras situações em que a tecnologia pode se mostrar com pouca eficácia, enquanto a leitura ainda consegue ser mais precisa.”
Como atleta paralímpica, Wili teve uma experiência com Braille e vestimenta que gostaria que fosse replicada por outras marcas. “Os uniformes que recebemos do Comitê Paralímpico Brasileiro têm Braille nas etiquetas informando as cores, em siglas. Isso nos dá uma autonomia muito grande, não só para nós do meio esportivo, mas para nós pessoas cegas em geral.”
Para Wili, o contato direto com a escrita proporcionado pelo Braille também influencia a forma como as pessoas se comunicam. “Fica evidente se compararmos a qualidade de desenvolvimento de ideias, ortografia e oralidade de alguém que tem contato direto com a escrita e de outra pessoa que está acostumada com os meios tecnológicos, tão influenciados por siglas e abreviações.” Sua fala reforça o papel do Braille não apenas como recurso de acesso, mas como base para o desenvolvimento pleno da escrita.

Interação

E você, leitor, sabia que o Braille ainda conserva tanta importância para pessoas com deficiência visual? Conte nos comentários!

Este post Dia Internacional do Braille reforça importância do sistema no acesso pleno à escrita apareceu primeiro no Comitê Paralímpico Brasileiro (CPB).

]]>
https://inspiracaostage.sages4it.com/dia-internacional-do-braille-reforca-importancia-do-sistema-no-acesso-pleno-a-escrita/feed/ 0
Trabalho e inclusão: histórias revelam direitos que se efetivam na prática https://inspiracaostage.sages4it.com/trabalho-e-inclusao-historias-revelam-direitos-que-se-efetivam-na-pratica/ https://inspiracaostage.sages4it.com/trabalho-e-inclusao-historias-revelam-direitos-que-se-efetivam-na-pratica/#respond Fri, 09 Jan 2026 17:13:28 +0000 https://inspiracaoparalimpica.org.br/?p=8917 A rotina de Rafael Giguer começa cedo. Auditor-fiscal do trabalho no Rio Grande do Sul, ele aprendeu ao longo dos anos que a organização da vida profissional está diretamente ligada à forma como o cotidiano é estruturado. Essa percepção, construída a partir de sua experiência como pessoa com deficiência, também se conecta a políticas públicas […]

Este post Trabalho e inclusão: histórias revelam direitos que se efetivam na prática apareceu primeiro no Comitê Paralímpico Brasileiro (CPB).

]]>
Dois surfistas vestindo camisetas azuis, ambos com a logo “CBSurf” e a palavra “Parasurf”. Eles estão juntos em uma praia, um deles segura uma prancha de surfe amarela com detalhes pretos, enquanto o outro está com os braços cruzados. Ao fundo, há outras pessoas, algumas bandeiras, uma estrutura metálica e areia, indicando o ambiente de competição. O clima parece ser descontraído e amistoso.
Rafael Giguer, auditor-fiscal do trabalho no Rio Grande do Sul / Foto: Arquivo Pessoal

A rotina de Rafael Giguer começa cedo. Auditor-fiscal do trabalho no Rio Grande do Sul, ele aprendeu ao longo dos anos que a organização da vida profissional está diretamente ligada à forma como o cotidiano é estruturado. Essa percepção, construída a partir de sua experiência como pessoa com deficiência, também se conecta a políticas públicas que reconhecem o esporte como parte do direito à vida plena.

“A prática esportiva sempre esteve presente na minha vida como algo que ajuda a organizar o dia”, contou Rafael. Não como competição ou desempenho, mas como um hábito que cria regularidade em meio às demandas da vida adulta. Essa compreensão dialoga com iniciativas que fortalecem o esporte paralímpico no país, como as desenvolvidas pelo Comitê Paralímpico Brasileiro (CPB), ao ampliar o acesso de pessoas com deficiência à prática esportiva desde cedo.

A relação entre esporte, trabalho e vida cotidiana ajuda a compreender a dimensão pública do debate sobre os direitos das pessoas com deficiência. No Brasil, o acesso ao emprego formal ocorre majoritariamente por meio da Lei de Cotas, prevista no artigo 93 da Lei nº 8.213, de 1991. Segundo Rafael Giguer, a efetividade dessa política está diretamente associada à fiscalização. “Foi só a partir de 2008, quando a fiscalização passou a ser sistemática, que o direito ao trabalho começou a se materializar de forma mais consistente para as pessoas com deficiência”, afirmou.

Desde então, cerca de 30 mil pessoas com deficiência ou reabilitadas são contratadas por ano por força direta da ação fiscal. Entre 2008 e 2021, enquanto o mercado de trabalho cresceu cerca de 18%, o emprego formal desse público cresceu 78%, desempenho aproximadamente 60% superior à média geral. Atualmente, mais de 93% das pessoas com deficiência com carteira assinada estão em empresas obrigadas a cumprir a Lei de Cotas.

Os dados ajudam a dimensionar o alcance da política pública, mas também evidenciam limites. Apesar dos avanços, apenas cerca de 55% das cotas previstas estão efetivamente preenchidas no país. Para Giguer, esse cenário reforça a importância da fiscalização contínua para que o direito ao trabalho se efetive. “Sem a fiscalização, a inclusão acontece de forma residual”, afirmou o auditor-fiscal, que mantém a prática esportiva como parte da rotina e encontra no surf um espaço de acolhimento.

Caminhos reconstruídos

Mulher de cabelo castanho, pele clara, vestida com blusa preta rendada, sorrindo em frente a uma parede branca. Ela segura uma bengala verde dobrada presa por um elástico preto com a mão direita.
Priscilla Selares, superintendente de Inclusão e Empregabilidade da Secretaria Municipal Extraordinária da Pessoa com Deficiência de São Luís | Foto: Arquivo Pessoal

Se os indicadores apontam avanços recentes, a história de Priscilla Selares revela o quanto o acesso ao trabalho para pessoas com deficiência esteve, por muito tempo, distante da realidade. Aos 18 anos, quando cursava o segundo período da Faculdade de Direito da Universidade Federal Fluminense (UFF), Priscilla sofreu um acidente vascular cerebral e perdeu a visão. A vida acadêmica e profissional, até então em curso, precisou ser reorganizada em um ambiente pouco preparado para acolher estudantes com deficiência.

A permanência na universidade exigiu esforço contínuo. Em um ambiente sem políticas estruturadas de acessibilidade e com pouca orientação institucional, Priscilla concluiu a graduação enfrentando barreiras que não faziam parte da rotina acadêmica da maioria dos estudantes. “A universidade não sabia lidar com pessoas com deficiência”, relembrou. Ainda assim, formou-se em Direito, com o diploma que, em tese, abriria as portas do mercado de trabalho.

O ingresso no mundo profissional, no entanto, foi marcado por recusas sucessivas. Empresas que se diziam comprometidas com a diversidade não estavam dispostas a contratar uma advogada com deficiência visual. “Foram muitos ‘nãos’”, recordou. A busca por uma oportunidade de trabalho, princípio constitucional básico, se tornou um percurso de resistência.

A virada veio com o Instituto Brasileiro dos Direitos da Pessoa com Deficiência (IBDD). Foi ali que Priscilla encontrou não apenas a primeira oportunidade profissional, mas também um espaço de atuação voltado à defesa de direitos. Ao se tornar advogada da instituição, passou a atuar diretamente na promoção da inclusão e no enfrentamento das barreiras impostas às pessoas com deficiência no acesso ao trabalho.

Atualmente, em São Luís (MA), Priscilla é superintendente de Inclusão e Empregabilidade da Secretaria Municipal Extraordinária da Pessoa com Deficiência. No cargo, atua na orientação de empresas, no encaminhamento de profissionais com deficiência ao mercado de trabalho e no enfrentamento de práticas discriminatórias no ambiente laboral. “A gente orienta as empresas sobre empregabilidade inclusiva, desde a não restrição de vagas até a disponibilização de tecnologias assistivas e a adaptação de todo o ambiente de trabalho”, afirmou.

Segundo Priscilla Selares, a permanência do percentual de vagas não preenchidas está relacionada ao capacitismo estrutural presente no mercado de trabalho. “O capacitismo ainda determina quais vagas as pessoas com deficiência podem ocupar, geralmente aquelas de menor remuneração e que não dialogam com a formação profissional que muitas já têm”, detalhou.

A superintendente destacou ainda que a exigência de experiência prévia, a ausência de oportunidades de treinamento em áreas operacionais e a demora na adaptação de equipamentos e ambientes de trabalho seguem como barreiras que limitam o acesso e a permanência em postos mais qualificados.

Tecnologia em movimento

Homem de pele clara usando óculos escuros, terno azul escuro, camisa clara e gravata também clara. Ele segura um microfone próximo à boca, como se estivesse falando ou cantando. No paletó, há um broche com o símbolo de acessibilidade colorido e um crachá visível. Ao fundo, há uma tela desfocada com o que parece ser texto, mas não é legível. O ambiente transmite a ideia de um evento formal ou uma conferência.
Milton de Carvalho Filho, coordenador-geral de Tecnologia Assistiva do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação | Foto: Bruno Spada/Câmara dos Deputados

Se o acesso ao trabalho depende de oportunidades e fiscalização, ele também exige ferramentas, métodos e condições para que a inclusão se efetive. A história profissional de Milton Pereira de Carvalho Filho mostra como as tecnologias assistivas se inserem nesse processo ao articular formação, esporte e inserção profissional.

Milton iniciou sua experiência no mundo do trabalho a partir de iniciativas viabilizadas por entidades de pessoas com deficiência, em Recife (PE). As primeiras oportunidades vieram como telefonista, em um contexto em que a articulação institucional foi decisiva para possibilitar o acesso ao emprego. “Muitas vezes, é essa articulação que consegue garantir a primeira oportunidade para a pessoa com deficiência”, disse.

O contato de Milton com as tecnologias assistivas se aprofundou quando se tornou estudante da Universidade Católica de Pernambuco (Unicap). Ao perceber a ausência de suporte especializado para estudantes com deficiência, passou a atuar na adaptação de materiais e no atendimento às demandas de acessibilidade no ambiente universitário. Inicialmente como estagiário e, posteriormente, como profissional da instituição, construiu um campo de atuação que uniu formação acadêmica e prática profissional.

Atualmente, como Coordenador-Geral de Tecnologia Assistiva do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), Milton acompanha políticas e iniciativas voltadas à ampliação do acesso das pessoas com deficiência à educação, ao trabalho e ao esporte. “A tecnologia assistiva não se resume a equipamentos, mas envolve também estratégias e metodologias capazes de garantir participação em igualdade de condições. Ela permite que a pessoa com deficiência tenha acesso real aos espaços e às atividades, inclusive no esporte”, afirma.

No campo esportivo, essa compreensão aparece em iniciativas desenvolvidas pelo Comitê Paralímpico Brasileiro, que atua na formação de profissionais, na disseminação de metodologias inclusivas e na ampliação do acesso ao esporte adaptado. Programas como o Educação Paralímpica, voltado à formação de professores, e outras ações de desenvolvimento do paradesporto em diferentes territórios contribuem para que crianças, jovens e adultos com deficiência tenham acesso à prática esportiva desde cedo. Para Milton, o “esporte adaptado e o paradesporto fortalecem a participação social e integram fatores que impactam diretamente a relação das pessoas com deficiência com o trabalho e com a vida cotidiana”.

Direito ao trabalho

As histórias descritas ao longo do texto reforçam que a inclusão de pessoas com deficiência no mundo do trabalho não se sustenta apenas na vontade individual, nem em iniciativas isoladas. Na avaliação do auditor-fiscal do trabalho Rafael Giguer, a efetividade desse direito está diretamente associada à forma como as políticas públicas são implementadas. “O que faz a diferença é quando a política pública sai do papel e passa a ser acompanhada, monitorada e fiscalizada”, afirmou.

Na ponta da política pública, essa lógica também orienta a atuação cotidiana. Em São Luís (MA), Priscilla Selares reforça que a inclusão exige continuidade e compromisso. “Não basta abrir uma vaga. É preciso orientar as empresas, garantir tecnologias assistivas, adaptar o ambiente de trabalho e acompanhar os processos. A inclusão acontece quando essas etapas são tratadas como parte da política, e não como exceção”, finalizou.

Participe

Compartilhe com o Inspiração Paralímpica quais os desafios para participação plena de pessoas com deficiência no mercado de trabalho e que ações são imprescindíveis para promover maior inclusão.

Este post Trabalho e inclusão: histórias revelam direitos que se efetivam na prática apareceu primeiro no Comitê Paralímpico Brasileiro (CPB).

]]>
https://inspiracaostage.sages4it.com/trabalho-e-inclusao-historias-revelam-direitos-que-se-efetivam-na-pratica/feed/ 0
Entenda a avaliação biopsicossocial para determinação de deficiência prevista na Lei Brasileira de Inclusão https://inspiracaostage.sages4it.com/entenda-a-avaliacao-biopsicossocial-para-determinacao-de-deficiencia-prevista-na-lei-brasileira-de-inclusao/ https://inspiracaostage.sages4it.com/entenda-a-avaliacao-biopsicossocial-para-determinacao-de-deficiencia-prevista-na-lei-brasileira-de-inclusao/#respond Fri, 12 Dec 2025 14:40:57 +0000 https://inspiracaoparalimpica.org.br/?p=8889 A avaliação biopsicossocial é fundamental para a determinação da deficiência no Brasil, conforme previsto no artigo 2º da LBI (Lei Brasileira de Inclusão). Essa abordagem reconhece que a limitação não se dá apenas pela condição de saúde, mas também pela interação de fatores ambientais, sociais, psicológicos e pessoais. A seção 1ª do art. 2º da […]

Este post Entenda a avaliação biopsicossocial para determinação de deficiência prevista na Lei Brasileira de Inclusão apareceu primeiro no Comitê Paralímpico Brasileiro (CPB).

]]>
Fotografia: a imagem mostra uma cena de atendimento fisioterapêutico em que um homem sentado em uma cadeira de rodas está com a camiseta levantada enquanto uma mulher faz um procedimento nas costas dele, usando um aparelho portátil. Eles estão em uma sala com várias cadeiras azuis empilhadas e mesas. Outro homem, também com uniforme esportivo, observa a cena sentado ao fundo. Trata-se de um atendimento dirigido a atletas paralímpicos.
Atleta passa por exame físico; avaliação biopsicossocial considera também barreiras sociais para compreensão da deficiência / Foto: Dhavid Normando/CPB

A avaliação biopsicossocial é fundamental para a determinação da deficiência no Brasil, conforme previsto no artigo 2º da LBI (Lei Brasileira de Inclusão). Essa abordagem reconhece que a limitação não se dá apenas pela condição de saúde, mas também pela interação de fatores ambientais, sociais, psicológicos e pessoais.
A seção 1ª do art. 2º da LBI diz que “a avaliação da deficiência, quando necessária, será biopsicossocial, realizada por equipe multiprofissional e interdisciplinar e considerará: (I) os impedimentos nas funções e nas estruturas do corpo; (II) os fatores socioambientais, psicológicos e pessoais; (III) a limitação no desempenho de atividades; e (IV) a restrição de participação”.
Além de avaliar o corpo e as funções orgânicas, avaliador e equipe devem averiguar o contexto em que essa pessoa se insere, como barreiras urbanísticas, de transporte, de comunicação, atitudes sociais, e de que forma essas barreiras limitam ou impedem sua participação plena na sociedade. Um impedimento físico por si só não determina a deficiência para a concessão de benefício se não for observado o impacto da interação com o ambiente.
Essa situação responde à definição de pessoa com deficiência adotada na LBI: “quem tem impedimento de longo prazo de natureza física, mental, intelectual ou sensorial, o qual, em interação com uma ou mais barreiras, pode obstruir sua participação plena e efetiva na sociedade em igualdade de condições com as demais pessoas”.
A avaliação biopsicossocial torna-se instrumento de justiça social, ao considerar que as pessoas enfrentam obstáculos que não decorrem apenas de seu corpo, mas também do ambiente e da organização social.
Em termos práticos para a concessão de direitos ou benefícios, como aposentadoria especial para pessoa com deficiência, benefícios assistenciais ou programas públicos, isso significa que a aprovação ou o deferimento dependerá de relatório ou laudo que evidencie, além de um parecer médico, a existência de impedimentos funcionais e a presença de barreiras que afetam o desempenho em atividades e a participação social da pessoa.
Recentemente, o Governo Federal instituiu o modelo da Avaliação Biopsicossocial Unificada da Deficiência (ABUD) para operacionalizar a avaliação biopsicossocial em âmbito nacional e uniformizar instrumentos e procedimentos. Esse modelo prevê, entre outros, o uso do Instrumento de Funcionalidade Brasileiro Modificado (IFBrM) para aferir a interação com barreiras. O objetivo é dar maior transparência, equidade e consistência nos processos de reconhecimento da deficiência para fins de acesso a políticas públicas e diminuir a burocracia de múltiplas avaliações.
Por outro lado, há desafios: falta de instrumentos totalmente implementados em todos os estados, necessidade de equipes multiprofissionais e interdisciplinares e capacitação dos avaliadores para adotar essa abordagem mais complexa.
E para você, leitor do Inspiração Paralímpica, qual a importância da adoção da avaliação biopsicossocial? Deixe seu comentário.

Este post Entenda a avaliação biopsicossocial para determinação de deficiência prevista na Lei Brasileira de Inclusão apareceu primeiro no Comitê Paralímpico Brasileiro (CPB).

]]>
https://inspiracaostage.sages4it.com/entenda-a-avaliacao-biopsicossocial-para-determinacao-de-deficiencia-prevista-na-lei-brasileira-de-inclusao/feed/ 0